A arte da crítica (31): o que faço quando critico?

A pergunta acima não é de fácil resposta. A princípio, digo assim: não sei. Mas posso pensar a respeito. Ou posso parafrasear Santo Agostinho quando lhe perguntavam sobre o tempo. “Se não me perguntam, eu sei; se perguntam, deixo de saber”.

Outro dia participei de um encontro de críticos. Havia jovens, intermediários e veteranos. Um deles disse que se alguém fizesse a clássica pergunta sobre qual seria a “função da crítica” ficaríamos dias e dias ali discutindo sem chegar a qualquer conclusão. De fato. Lembrei aos colegas que havia outra pergunta, tão incômoda como essa: “Por que a filosofia?”. E me lembro que um filósofo, Maurice Merleau-Ponty, respondeu mais ou menos da seguinte maneira: serve para não dar assentimentos sem os considerandos.

Ou seja, a filosofia é uma espécie de anti-lacração. Precisamos percorrer todas as etapas do raciocínio para debater uma ideia, antes de chegarmos (ou não) a alguma conclusão, ainda que provisória. Não bastam frases de efeito, ou iluminações súbitas. Vale o pensamento, com todo o seu trabalho.

Seguindo por aí, a crítica aparece como dependente de uma ferramenta incontornável – a linguagem, com seu alcance e limitações. Daí que, segundo uma anedota que já contei em outra parte desta arte da crítica, o crítico só chega a um “julgamento” sobre um filme depois de ter escrito sobre ele.

Claro, assim que estamos vendo um filme pela primeira vez, experimentamos as sensações e impressões e linhas de pensamento que ele nos provoca. Tédio, emoção, raiva, empatia, alegria e tristeza. Sensações, mas também pensamentos, fluxos erráticos de ideias, nem sempre conectadas à obra. São, por assim dizer, concomitantes ao ato mesmo de estar numa sala de cinema (ou em casa, diante de uma tela) assistindo a um filme.

O processo posterior é diferente. Quando vamos escrever sobre o filme que vimos, já não é sobre ele que nos debruçamos, mas sobre a memória que ele nos deixou, com todas as imperfeições (e criatividade) de que é capaz essa função.

Além disso, sobre essa memória do filme, sobre essa espécie de “resto diurno” (para utilizar a expressão de Freud a respeito do material de construção dos sonhos”, aplicamos a linguagem. As palavras. Ou seja, o nosso estoque linguístico, com seus buracos, conexões naturais ou arbitrárias, conceitos e preconceitos. Esse pudim de linguagem que nos fornece os materiais de construção para elaborarmos o texto sobre o filme que já vimos.

Dispomos, repito, não do filme em si, mas do seu resto de memória. O pior (ou melhor), talvez, é que, elaborando com nossa linguagem sobre essa memória, terminamos por modificá-la de alguma forma. E é nessa elaboração segunda que chegamos a alguma conclusão sobre essa essa obra que um dia vimos, na tela, em estado nascente.

Daí ser inevitável colocarmos muito de nós naquilo que escrevemos sobre a obra alheia. De certa forma, a crítica é uma espécie de apropriação. Realmente tomamos como nosso o filme alheio, assim como o quadro, a música, o livro.

Por isso, Oscar Wilde dizia simplesmente: “Toda crítica é uma autobiografia”. A afirmação está em seu ensaio O crítico como artista.

O enciclopedista Denis Diderot teve sua biografia traduzida em português. No livro de Andrew S. Curran, há um trecho assim: “Ele (Diderot) acabou por perceber que a melhor maneira de escrever sobre arte não era simplesmente descrever ou avaliar a pintura à sua frente, mas aproveitar o tempo para ter uma conversa consigo mesmo.”

Posso acrescentar outra citação, essa mais contemporânea: “A meta de todo comentário sobre arte agora deveria tornar obras de arte – e, por analogia, nossa própria experiência – mais real para nós, e não menor.” (Susan Sontag, Contra a Interpretação).

São ideias instigantes, ou mesmo paradoxais, que precisam ser debatidas. Se de fato colocamos muito de nós mesmos nas obras sobre as quais escrevemos, como fazer para escapar ao arbitrário? Ou seja, ver, nessas obras, algo que não está nela, mas apenas em nós? Se nos deixarmos levar por esta ideia um tanto impressionista, como faremos para levar em conta a materialidade da obra? Como nos dispensarmos de buscar algum grau de “objetividade” em relação à obra?

Em particular, como estabelecermos uma boa distância entre nós e a obra? Como fazer para fascinar-nos por ela e não por nós mesmos, assim transformando o ato crítico em puro exercício narcísico?

(Work in progress. Continua)

Leia a série completa de A arte da crítica

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