A arte da crítica (28): a literatura, o cinema e a lição de Drive my Car

Ryusuke Hamaguchi tira a linha central de Drive my Car do conto homônimo, presente no livro Homens sem Mulheres, de Haruki Murakami. Com uma diferença, ou algumas diferenças. No conto, Tchekov aparece apenas como referência. No filme, torna-se central e o cineasta faz sua história dialogar com a peça Tio Vânia do dramaturgo e contista russo, que o personagem principal vai montar em Hiroshima. 

Além disso, dois outros contos de Mulheres sem Homens contribuem para a construção de Drive My Car. De Sherazade, ele tira a história da mulher que, depois de transar, passa a contar histórias incríveis ao parceiro. De Kino, utiliza o caso do homem que, ao voltar para casa mais cedo que o previsto, surpreende a esposa fazendo sexo com um colega dele na empresa em que trabalha.

É apenas isso. Esses dois contos – Sherazade e Kino – têm desdobramentos misteriosos, que não são usados por Hamaguchi. Chegam, os contos, a flertar com o fantástico, ao passo que Hamaguchi detém-se no realismo da narrativa. 

Mesmo o diálogo com Tchecov é bastante criativo. Para o russo, a solidão, as vidas vazias na propriedade rural dão lugar a sentimentos intensos – a paixão de Vânia por Helena, a de Sônia pelo médico, o vácuo existencial levando a uma tristeza que só se conforta na suposição do além, como na magnífica e conhecida fala de Sônia a Vânia: …”Nós repousaremos”.  

De qualquer forma, Drive My Car é um belo exemplo de como o cinema pode dialogar com a literatura. Sem se submeter a ela – mesmo em textos clássicos como os de Tchecov -, mas usando-a como fonte de inspiração. 

Claro que este é um pequeno capítulo na longa tradição das adaptações cinematográficas de obras literárias. Só para lembrar. Já foram signos de distinção cultural para uma arte ainda em busca de reconhecimento. E depois foram demonizadas como “cinéma de qualité”, ou cinema de papai e mamãe pelos moçoilos dos Cahiers du Cinéma.

(Work in progress. Continua)

Leia a série completa de  A arte da crítica

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(Em tempo: Drive my Car ganhou o Oscar de melhor filme internacional. Já estreou nos cinemas e entra dia 1//22 na plataforma de filmes MUBI) 

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